A fala de Valmir de Francisquinho (Republicanos) sobre mulher na política continua repercutindo fortemente e, até aqui, a maior parte das reações foi de crítica ao teor machista escancarado na declaração do pré-candidato ao Governo de Sergipe. Mas em meio à repercussão negativa, o que também chamou atenção foi a tentativa de alguns profissionais da imprensa, aliados ao itabaianense, de suavizar a gravidade do episódio e construir justificativas para relativizar a fala. E aí está um dos maiores problemas dessa história: transformar uma declaração, dita de forma clara e em alto bom som, em algo “mal interpretado” acaba sendo um desserviço ao próprio jornalismo.
O papel do jornalismo não é servir de escudo para figuras públicas diante de declarações polêmicas, principalmente quando elas carregam um discurso que reforça visões ultrapassadas sobre o papel da mulher na sociedade.
Porque não existe muito espaço para dúvida na frase dita por Valmir. “Mulher em política, esqueça”. Não foi uma fala tirada de contexto, não foi uma edição manipulada e muito menos um raciocínio complexo que exigisse interpretação profunda. Foi uma declaração direta, espontânea e feita por alguém que deseja governar Sergipe. E justamente por isso a repercussão foi tão grande.
É evidente que existe exagero quando tentam puxar para o debate político alguém que vive completamente fora da vida pública, como a esposa de Valmir. Mas esse não é o ponto central da discussão, embora alguns estejam tentando transformar isso no foco principal justamente para diminuir o peso da fala. Uma coisa não anula a outra. Questionar a exposição de alguém anônimo é válido. Agora usar isso como argumento para relativizar uma declaração problemática é outra história.
Outro detalhe importante é que o problema não está apenas na intenção de Valmir, como alguns tentam argumentar. O problema está no simbolismo da fala. O Brasil ainda enfrenta enorme dificuldade na participação feminina dentro da política, ambiente historicamente dominado por homens e marcado por episódios constantes de machismo e violência política de gênero. Quando um pré-candidato ao governo solta uma frase como essa, naturalmente o debate ganha outra proporção.
E o próprio tamanho da repercussão mostra isso. A reação negativa não veio apenas de adversários políticos. Veio principalmente de mulheres e internautas que enxergaram na fala um enorme erro político e simbólico. Não por acaso, várias lideranças acabaram se posicionando publicamente defendendo que mulher não precisa de autorização para ocupar espaço na política.

